O amor não recua quando o sofrimento bate à porta 

Dom Frei Manoel Delson Pedreira da Cruz,OFMCap

À luz da Páscoa, o sofrimento já não pode ser visto apenas como peso ou absurdo. Ele é atravessado por uma promessa. Foi isso que São João Paulo II recordou à Igreja ao refletir sobre o mistério da dor humana: aquilo que parece fim, em Cristo, torna-se passagem; aquilo que fere, pode tornar-se lugar de redenção. 

O sofrimento continua presente em todos os cantos da terra, acompanhando silenciosamente a vida humana. Mas, depois da Ressurreição, ele já não é uma noite sem aurora. Em Cristo, cada dor carrega escondida a semente da vida nova. O homem que sofre não está condenado ao vazio, mas é misteriosamente chamado a participar do próprio caminho pascal: da cruz à luz, da ferida à glória. 

Vivemos, porém, em um tempo que foge da cruz e esquece da exigência de amor da Ressurreição. Queremos a alegria sem a entrega, a vida sem a passagem pelo amor que se doa até o fim. Ainda assim, o sofrimento permanece como um lugar onde Deus nos visita e nos convida a ir além de nós mesmos. Ele abre, no mais profundo da existência, frestas por onde a graça pode entrar. 

Neste horizonte pascal, compreendemos algo essencial e profundamente evangélico: a Igreja encontra o homem de modo privilegiado justamente quando ele sofre. Não é à margem da dor, mas no coração dela, que o mistério do amor de Deus se deixa tocar com mais verdade. Foi ali, na dor assumida e oferecida, que Cristo revelou o amor mais pleno, um amor que não recua diante do sofrimento, mas o atravessa e o transforma em dom. 

Por isso, o homem ferido, marcado pelas cruzes visíveis e invisíveis, torna-se caminho da Igreja. Não como obstáculo que atrasa sua missão, mas como lugar onde ela descobre sua própria identidade. É diante da fragilidade humana que a Igreja aprende novamente a ser samaritana, a inclinar-se, a cuidar, a permanecer. O sofrimento do outro não é interrupção da missão; é o seu terreno mais fecundo. 

Nesse sentido, cada dor acolhida com amor torna-se como um altar escondido no mundo, onde a caridade se encarna de modo concreto. Ali, longe dos holofotes, realiza-se a liturgia silenciosa do amor cristão: mãos que sustentam, corações que escutam, vidas que se doam. É justamente nesses lugares, muitas vezes esquecidos, que a Páscoa de Cristo continua a acontecer, discreta, mas real, transformando a dor em caminho de vida nova. Por isso, não nos é permitido passar adiante. Diante do sofrimento, somos chamados a viver à imagem do Bom Pastor: aquele que conhece, se aproxima, toma sobre si a fragilidade do outro e não abandona suas ovelhas. Com um olhar pascal, aprendemos que cada gesto de amor participa da vitória de Cristo sobre a morte. Permanecer, nesse caso, não é apenas solidariedade humana; é comunhão com o próprio Senhor que continua a buscar, sustentar e levantar os que estão caídos. 

E tudo brota da oração. É nela que unimos as dores do mundo ao sacrifício redentor de Cristo, que já venceu o pecado e a morte. Quando levamos o sofrimento para a oração, ele deixa de ser grito solitário e se torna clamor que encontra resposta no coração ressuscitado do Senhor.  

Como recorda o Papa Leão XIV: “Através de frestas de ressurreição que surgem na escuridão, Ele entrega o nosso coração à esperança que nos sustenta: o poder da morte não é o destino último da nossa vida. De uma vez para sempre, estamos orientados para a plenitude, porque, em Cristo ressuscitado, também nós ressuscitamos.”
Essas “frestas” são sinais discretos da presença do Ressuscitado no meio da dor: não eliminam a cruz, mas a atravessam com esperança. Elas nos recordam que não caminhamos para o vazio, mas para a plenitude, e que, mesmo em meio às sombras, a vida nova já começou. 

A Igreja, mesmo marcada pela fragilidade de seus filhos, é enviada como testemunha dessa esperança: não anuncia uma teoria, mas a vida nova que já começou. Entre lágrimas e cruzes, vive-se uma espiritualidade pascal no cotidiano, onde pequenos gestos de amor, fidelidade e perseverança revelam que a Ressurreição já opera no coração da história. Por isso, a Igreja segue em saída, não ignorando o sofrimento do mundo, mas certa de que ele foi visitado e transformado por Cristo: onde há dor, pode nascer redenção; onde há cruz, pode florescer vida; e assim caminhamos, não apenas carregando um peso, mas guardando uma promessa.