Existe uma calculadora para o perdão?

Dom Frei Manoel Delson Pedreira da Cruz, OFMCap.

A pergunta pode parecer estranha, mas, de algum modo, foi justamente essa a conta que Pedro tentou fazer diante de Jesus: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” (Mt 18,21). Pedro procura um número, um limite, uma medida. A resposta de Jesus desconcerta: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”.

Há experiências que permanecem conosco por muito tempo. Palavras que feriram, relações que se romperam, injustiças que deixaram marcas. Diante delas, o perdão talvez seja uma das exigências mais difíceis da vida cristã. Por isso, compreendemos a pergunta de Pedro. Em algum momento, também queremos saber: até quando? Quantas oportunidades ainda precisamos oferecer? Quantas vezes é possível recomeçar?

Jesus não pretende estabelecer uma nova contabilidade para o perdão. “Setenta vezes sete” significa justamente romper com a lógica que estabelece limites para a misericórdia. Não existe uma calculadora capaz de determinar quando já perdoamos o suficiente. O discípulo de Cristo não pode viver contabilizando as faltas do outro, acumulando ressentimentos ou esperando o momento de devolver aquilo que recebeu.

É exatamente isso que revela a parábola contada por Jesus. Um servo devia ao rei uma quantia impossível de pagar. Diante de sua súplica, o senhor não apenas lhe concede mais tempo: perdoa toda a dívida. No entanto, ao encontrar um companheiro que lhe devia muito menos, aquele mesmo homem torna-se implacável. Recebeu misericórdia, mas não permitiu que a misericórdia transformasse seu coração.

Talvez essa seja também uma das grandes contradições de nossa experiência religiosa. Somos rápidos em pedir que Deus compreenda nossas fragilidades, acolha nossos arrependimentos e nos ofereça novas oportunidades. Entretanto, diante das fragilidades dos outros, podemos nos tornar exigentes e impacientes. Queremos uma misericórdia sem medidas para nós, enquanto facilmente estabelecemos limites para oferecê-la aos outros.

Perdoar, contudo, não significa dizer que o mal não aconteceu. O Evangelho não nos pede para diminuir aquilo que nos feriu profundamente, nem exige que permaneçamos em relações que nos destroem. Perdão não é esquecimento, ingenuidade ou ausência de justiça. É não permitir que a ferida determine para sempre quem somos e a maneira como continuaremos vivendo.

Por isso, o perdão é também um caminho de liberdade. Enquanto alimentamos continuamente a ofensa, permanecemos ligados àquilo que nos feriu. O ressentimento promete alguma reparação, mas frequentemente prolonga dentro de nós a presença do mal recebido. Perdoar é começar a retirar da ofensa o poder de governar nosso coração.

A parábola de Jesus nos convida, então, a olhar menos para a dívida do irmão e mais para a misericórdia que nós mesmos recebemos. Antes de sermos cobradores das dívidas alheias, somos pessoas profundamente necessitadas da misericórdia de Deus. E quem descobre o quanto foi perdoado começa a compreender por que também precisa aprender a perdoar.

Talvez Pedro tenha começado fazendo uma conta e terminado descobrindo que a misericórdia pertence a outra lógica. Diante das nossas feridas, dos limites que estabelecemos e das contas que insistimos em fazer sobre as faltas dos outros, o Evangelho continua nos deixando uma provocação: existe uma calculadora para o perdão?