Ser sal e luz é não fugir do mundo

Dom Frei Manoel Delson Pedreira da Cruz, OFMCap.

O Evangelho não permite que a fé cristã seja reduzida a uma experiência fechada na intimidade. Quando Jesus diz aos discípulos: “Vós sois o sal da terra” e “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13-14), confia-lhes uma missão que alcança a vida concreta. O sal se mistura ao alimento; a luz existe para iluminar. Assim também acontece com a vocação do cristão leigo: seu lugar é no coração do mundo, testemunhando o Evangelho e colaborando para transformar a sociedade a partir de dentro. Ser sal e luz é não fugir do mundo.

A vocação laical nasce do Batismo. Por isso, o leigo não é simplesmente alguém que “ajuda o padre” ou desempenha funções dentro da igreja. Sua missão acontece também na família, no trabalho, na escola, na universidade, na cultura, na economia e na política. O Papa Leão XIV, ao refletir sobre a vocação dos leigos, recordou que o campo do apostolado laical não se limita ao espaço eclesial, mas se estende ao mundo. É justamente nas realidades cotidianas que os cristãos são chamados a antecipar, por suas escolhas, a justiça e a paz do Reino de Deus.

Ser luz no mundo significa, portanto, iluminar também as realidades sociais. Não podemos separar a fé que professamos no domingo das decisões que tomamos durante a semana. Quem se aproxima da mesa da Palavra e da Eucaristia é enviado a construir relações mais humanas, defender a dignidade das pessoas e trabalhar pelo bem comum. A fé não oferece uma legenda partidária, mas forma a consciência para que nossas escolhas sejam orientadas pela verdade, pela justiça, pela solidariedade e pelo respeito à dignidade humana.

É nesse horizonte que devemos compreender também a consciência política do cristão. A política, quando verdadeiramente orientada para o bem comum, torna-se espaço de responsabilidade e serviço. O leigo cristão não pode permanecer indiferente diante da pobreza, da corrupção, das desigualdades, da violência e das diferentes formas de exclusão. Também não deveria permitir que paixões partidárias destruam a fraternidade. Antes de perguntar quem está do nosso lado, o Evangelho nos ensina a perguntar quem necessita de nossa proximidade.

Essa missão exige uma profunda conversão das relações. A Palavra de Deus nos convoca ao amor a Deus traduzido no amor imediato aos irmãos, inclusive quando encontramos pessoas difíceis ou que nos fizeram algum mal. O Papa Francisco, falando sobre o amor aos inimigos, lembrava que somos chamados a responder com o bem até mesmo àqueles que falam mal de nós, nos caluniam ou nos enganam. Essa “estratégia da bondade” é profundamente necessária também na vida social e política.

Vivemos um tempo em que as divergências rapidamente se transformam em agressões. As redes sociais potencializam julgamentos, rótulos e discursos que eliminam qualquer possibilidade de diálogo. O cristão, porém, não pode reproduzir a mesma lógica. Ser sal e luz significa saber discordar sem odiar; defender convicções sem desumanizar quem pensa diferente; combater a injustiça sem transformar pessoas em inimigos. A consciência política cristã não pode se alimentar do ódio, mas da busca sincera pelo bem comum.

O Papa Leão XIV tem insistido na estreita relação entre justiça e paz. Não se constrói uma verdadeira paz quando permanecemos indiferentes às injustiças que ferem a dignidade humana. Ao mesmo tempo, não construiremos uma sociedade melhor multiplicando agressões e divisões. Justiça, paz e boas relações não são realidades opostas. Fazem parte do mesmo compromisso cristão de transformar o mundo segundo o Evangelho.

É justamente aqui que a vocação dos leigos manifesta toda a sua beleza. Existe uma santidade construída no cotidiano: no voto consciente, no exercício responsável da cidadania, na honestidade profissional, no cuidado com os pobres, no diálogo dentro da família, no respeito a quem pensa diferente e na coragem de defender aqueles que não têm voz.

Ser sal e luz é não fugir do mundo. É estar nele sem assumir suas lógicas de ódio, egoísmo e indiferença. Nossa sociedade precisa de cristãos que não apenas denunciem a escuridão, mas acendam pequenas luzes; que não aumentem a divisão, mas construam pontes; que não utilizem a fé como instrumento de disputa, mas façam dela uma força de transformação. É assim que a vocação laical se torna missão: levando o Evangelho para onde a vida acontece e fazendo da justiça, da paz e da fraternidade sinais concretos do Reino de Deus.