Dom Frei Manoel Delson Pedreira da Cruz, OFMCap
Nestes primeiros dias da Páscoa do Senhor, o anúncio da Ressurreição ressoa por toda a terra como uma notícia que não se esgota. Abre-se diante de nós o “primeiro dia”, sem ocaso, no qual Cristo venceu a morte e o pecado, dissipando toda tristeza sem esperança. Não se trata de uma lembrança do passado, mas de uma realidade viva que inaugura um tempo novo, oferecendo a cada homem e mulher a possibilidade de recomeçar. Por isso, a Páscoa é também um convite pessoal a acolher essa vida nova e deixar-se transformar por ela. Como recorda o Papa Francisco: “Hoje, a Igreja renova o anúncio dos primeiros discípulos: Jesus ressuscitou!… Aleluia!”
O Mistério Pascal nos introduz justamente nessa dinâmica: a cruz não é negada, mas atravessada; a dor não é ignorada, mas redimida. A alegria da Ressurreição não elimina as feridas, mas as transforma. Como recorda também o Papa Leão XIV: “A força com que Cristo ressuscitou é completamente não violenta. É semelhante à de um grão de trigo que, ao decompor-se na terra, cresce, abre passagem pelas leivas, germina e transforma-se numa espiga dourada. É ainda mais semelhante à do coração humano que, ferido por uma ofensa, rejeita o instinto de vingança e, cheio de piedade, reza por quem o ofendeu.”
Essa imagem ilumina profundamente o sentido da Páscoa: a vitória de Cristo não se impõe pela força, mas pela lógica do amor que se doa e transforma por dentro. É uma força silenciosa, paciente e fecunda, que age no escondimento e se revela na capacidade de perdoar. Quando alguém, mesmo ferido, renuncia à vingança e escolhe a misericórdia, torna visível no mundo a própria força da Ressurreição.
É à luz desse horizonte pascal que celebramos, neste Domingo, a Misericórdia Divina, não como um tema secundário, mas como o primeiro e mais concreto fruto da Ressurreição. A misericórdia é a forma pela qual o Cristo Ressuscitado continua a tocar a história, alcançando cada coração ferido, reconciliando o pecador e restaurando a dignidade perdida. Por isso, falar de misericórdia não é apenas uma entre tantas tarefas da Igreja, mas a expressão mais fiel da sua própria identidade e missão no mundo.
Nesse caminho, é impossível não recordar, com profunda gratidão, o testemunho do Papa Francisco, cuja vida e ministério foram marcados por essa verdade central do Evangelho. Seu pontificado configurou-se como um insistente e apaixonado convite para que ninguém se sentisse excluído do amor de Deus. Com gestos simples, palavras diretas e uma proximidade concreta com os mais frágeis, ele recordou à Igreja e ao mundo que a misericórdia não é uma ideia abstrata, mas o próprio rosto de Deus inclinado sobre a miséria humana.
Páscoa e Misericórdia são inseparáveis. Ao contemplarmos o Cristo Ressuscitado, vemos também suas chagas gloriosas, sinais de um amor que não se retrai diante do pecado. Nelas encontramos cura, consolo e paz. É a alegria que nasce do perdão. Muitas vezes, após o pecado ou o fracasso, parece não haver saída; mas é precisamente aí que o Senhor nos alcança com sua graça, oferecendo-nos sua paz e fazendo-nos experimentar o abraço da sua misericórdia.
O Tempo Pascal, que se prolonga até Pentecostes, é um caminho espiritual no qual somos chamados a permanecer e a crescer, deixando-nos conduzir docilmente pelo Espírito Santo. Nesse itinerário, aprendemos a realizar uma verdadeira passagem interior: da lógica da vingança para a graça do perdão, do impulso de retribuir o mal para a coragem de responder com misericórdia.
Deus, por sua vez, nunca se cansa de dar o primeiro passo — Ele é sempre o mais interessado em nos perdoar e em restaurar o nosso coração. A nós cabe acolher, com humildade, esse dom e permitir que ele nos transforme, abrindo-nos a uma autêntica conversão. Assim, pouco a pouco, a força da Ressurreição vai moldando em nós um coração novo, capaz não apenas de receber o perdão, mas também de oferecê-lo. Como pastor desta Igreja centenária da Paraíba, renovo não apenas os votos de uma feliz Páscoa, mas o convite a uma vida verdadeiramente pascal, firmada na confiança na misericórdia de Deus. Não tenhamos medo de suplicá-la, sobretudo nas horas mais difíceis, pois Deus nunca se cansa de perdoar um coração arrependido. O Cristo Ressuscitado é o Bom Pastor que nos conduz, restaura nossas forças e caminha conosco mesmo nos vales mais escuros; por isso, confiemos: não sucumbiremos ao mal, porque, no fim, a última palavra sobre a nossa vida não é o pecado, nem a dor, nem a morte, mas a misericórdia — sempre a misericórdia.