O perdão cristão nasce da Cruz

Dom Frei Manoel Delson Pedreira Cruz, OFMCap

O Apóstolo Paulo, um dos maiores anunciadores do Evangelho no cristianismo nascente, recorda-nos que a pregação não é um ato de vaidade nem de prestígio pessoal, mas uma exigência profunda da própria fé. Ao afirmar que “pregar o Evangelho não é para mim motivo de glória, é antes uma necessidade” (1Cor 9,16), Paulo revela que anunciar Cristo não é opção secundária, mas consequência direta de uma vida profundamente tocada por Deus.

Desde o Batismo, todo cristão é inserido nessa dinâmica missionária da Igreja. A fé não pode permanecer confinada ao âmbito privado ou restrita a momentos específicos da vida religiosa. Ela pede expressão concreta, existencial, no cotidiano. Somos chamados a ser anunciadores da Palavra de Deus onde quer que estejamos, não apenas por discursos, mas sobretudo pelo testemunho de vida.

Mas por que devemos carregar o Evangelho no coração e traduzi-lo em atitudes? A resposta fundamental está na certeza de que somos infinitamente amados por Deus. Quem experimenta esse amor não consegue retê-lo apenas para si. Como recordava o Papa Francisco na Evangelii Gaudium, o bem, por sua própria natureza, tende a comunicar-se. Toda experiência autêntica de verdade, beleza e libertação gera sensibilidade diante do outro e de suas necessidades. Evangelizar, portanto, não é impor uma ideia, mas partilhar uma experiência viva de amor que transforma.

Esse anúncio do amor de Deus encontra uma de suas expressões mais exigentes e libertadoras no perdão. Pregar o Evangelho é, necessariamente, pregar o Evangelho do perdão. Não se trata de negar a dor ou relativizar o mal, mas de proclamar que a misericórdia de Deus é maior que o pecado e mais forte que qualquer ruptura. O perdão cristão nasce da Cruz, onde Cristo, ferido e rejeitado, responde não com condenação, mas com amor que reconcilia: “Pai, perdoa-lhes” (Lc 23,34).

O amor de Cristo, quando acolhido, educa-nos para uma lógica nova, contrária ao ressentimento e à vingança. Ele nos impulsiona a reconhecer que o mal não tem a última palavra. Nesse horizonte de esperança, ressoa com força a afirmação do Papa Leão XIV: “Deus ama a todos. O mal não prevalecerá. Estamos todos nas mãos de Deus. Então, sem medo, unidos, de mãos dadas com Deus e entre nós, sigamos em frente.”  Essa certeza sustenta a missão cristã e dá coragem para anunciar o perdão mesmo em contextos de conflito, dor e divisão.

Neste horizonte, a Arquidiocese da Paraíba vive, neste ano, o Ano da Caridade, como um compromisso concreto de colocar em prática o Evangelho em todas as suas dimensões. Trata-se de um chamado a fazer da caridade o eixo da vida paroquial e arquidiocesana, das relações pessoais e do testemunho social da fé. Mais do que um tema, o Ano da Caridade é um caminho espiritual e pastoral que convida cada comunidade e cada fiel a traduzir o Evangelho em gestos concretos de amor, serviço, reconciliação e cuidado com os mais vulneráveis, tornando visível, no cotidiano, a misericórdia de Deus que transforma vidas e renova a sociedade.

Como recorda o Papa Bento XVI, Cristo continua hoje a nos tomar pela mão por meio dos sacramentos, levantando-nos da febre das paixões desordenadas, das ideologias e do esquecimento de Deus. De modo especial, no sacramento da Reconciliação, somos alcançados por um perdão que não apenas absolve, mas cura, liberta e nos devolve a capacidade de estar de pé diante de Deus e dos irmãos. Essa experiência de misericórdia insere-nos na missão da Igreja e compromete-nos com uma caridade autêntica, que nasce de um coração reconciliado. Quem se deixa tocar pela mão de Cristo torna-se, por coerência evangélica, instrumento de perdão, reconciliação e paz, testemunhando com a própria vida que a verdadeira caridade transforma relações e constrói comunhão.

Maria, Mãe da Esperança do povo cristão, acompanha a Igreja em sua missão de anunciar o Evangelho do amor e do perdão. A Ela confiamos nosso caminho, pedindo que nos ensine a acolher a misericórdia de Deus e a traduzi-la em gestos concretos de reconciliação e fraternidade. Que sua materna intercessão nos sustente na promoção do bem, da verdade e da paz, fortalecendo-nos na certeza de que o amor gratuito e fiel de Deus jamais se cansa de perdoar e nunca abandona seus filhos.