A Palavra de Deus permanece viva em nós

Dom Frei Manoel Delson Pedreira da Cruz, OFMCap

A Palavra de Deus é viva: não morre nem envelhece. Ela permanece jovem e dá vida àqueles que a acolhem e a colocam em prática. Por meio das Escrituras, Cristo continua a falar à sua Igreja. Por isso, a Bíblia não é apenas um livro sagrado a ser lido: é Palavra de Deus, proclamada, escutada e vivida na comunidade da Igreja, sob a ação do Espírito Santo e à luz da Tradição.

No Evangelho deste domingo (Mt 22,34-40), Jesus nos revela o centro de toda a Lei: amar a Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento; e amar o próximo como a nós mesmos. Esse amor envolve a pessoa inteira: sentimentos, vontade e inteligência. A fé também ilumina nosso modo de pensar, ajudando-nos a olhar a vida e os outros com o olhar de Deus.

Jesus une o amor a Deus ao amor ao próximo e afirma que toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos. Não há escuta verdadeira da Palavra que permaneça fechada em nós. A Palavra acolhida se traduz em respeito, colaboração e ajuda generosa. Ela nos ensina a reconhecer e cuidar, de modo concreto, daqueles que muitas vezes não têm quem os defenda: os pobres, os esquecidos, os estrangeiros e todos os que vivem alguma forma de vulnerabilidade.

Para crescer nessa relação com a Palavra, precisamos aprender a escutar. O silêncio, a oração e a leitura atenta nos ajudam a abrir o coração à ação do Espírito Santo. Também precisamos escutar juntos, como Igreja: a Palavra não nos é dada para uma interpretação isolada, mas para ser acolhida, celebrada e vivida em comunidade. Quando a escuta é sincera, ela nos transforma e nos leva ao encontro dos irmãos.

Neste domingo de eleições, a Palavra também nos interpela a assumir um compromisso ético com a dignidade humana, a justiça, a verdade e o bem comum. O respeito às diferentes escolhas políticas não significa relativizar os valores nem validar a corrupção. A corrupção deve ser rejeitada, independentemente de quem a pratique ou do grupo que represente. O amor ao próximo exige que não tratemos como aceitável aquilo que fere a vida, a honestidade e o bem da sociedade.

O Papa Francisco nos convidava a construir uma cultura do encontro: dialogar e reconhecer a dignidade do outro, mesmo quando temos opiniões e visões de mundo diferentes. Esse encontro, porém, não é silêncio diante do que é injusto. Podemos divergir e defender nossas convicções com firmeza, sem transformar quem pensa diferente em inimigo e sem deixar que a disputa destrua a caridade. Que nossas escolhas e palavras, neste tempo de eleições, sejam coerentes com o Evangelho e preservem nosso testemunho cristão.

É importante distinguir a escolha de cada fiel da posição institucional da Igreja. Os fiéis, como cidadãos guiados pela consciência cristã, têm liberdade e responsabilidade para fazer suas escolhas políticas. Essa opção pessoal não deve ser apresentada como se fosse uma posição oficial da Igreja, nem como apoio da Igreja a um partido ou candidato. A Igreja não tem partido e não obriga seus fiéis a votar em determinados candidatos.

Que nosso testemunho proclame, em gestos concretos, que a Palavra de Deus permanece viva: Cristo está vivo, continua a falar e nos ensina a amar a Deus e ao próximo.