Destaque, Notícias

A vida com HIV e a acolhida no Hospital Padre Zé

Foi em 2011, no interior da Paraíba, que Joana (nome fictício), aos 22 anos, descobriu estar infectada com HIV. Seu esposo adoeceu e, no hospital da cidade, foi diagnosticado como soropositivo após realizar o exame sorológico. A médica solicitou a Joana que ela e a filha do casal também realizassem o teste. Para a menina foi negativo, mas, para Joana, foi positivo. “Meu mundo desabou, né? Eu era leiga, não entendia nada da doença. Pra mim era uma sentença de morte, e eu estava com os dias contados”, conta.

Joana é apenas um dos milhares de casos de infecção por HIV no Brasil. O HIV é uma IST, ou seja, uma Infecção Sexualmente Transmissível. Sendo assim, a principal forma de contágio é a via sexual. No caso do HIV, a infecção é causada por um vírus denominado vírus da imunodeficiência humana. O diagnóstico do HIV é feito por meio de testes. Existem diferentes tipos de testes de HIV disponíveis, como o auto-teste, os exames laboratoriais e os testes laboratoriais remotos.

A AIDS é o estágio mais avançado da infecção pelo HIV e surge quando a pessoa apresenta infecções oportunistas (que se aproveitam da fraqueza do organismo, como tuberculose e pneumonia) devido à baixa imunidade ocasionada pelo vírus. Segundo o último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, 982.129 casos de AIDS foram detectados no Brasil, de 1980 a junho de 2018, sendo 24% jovens de 15 a 24 anos. 
 

Foto divulgação: Casa de Convivência João Paulo II

Há três anos Joana começou a frequentar as atividades da Casa de Convivência João Paulo II, que fica localizada no Hospital Padre Zé, em João Pessoa, e funciona desde 1999. Ligado à Ação Social Arquidiocesana (ASA), o espaço presta assistência a pessoas que vivem com HIV em situação de vulnerabilidade, que vêm de longe e precisam fazer tratamento no Hospital Clementino Fraga e Hospital Universitário. 

   Arquivo pessoal: Goretti Duarte

Goretti Duarte é coordenadora da Casa há 15 anos e conta que, nesse tempo de trabalho, um dos maiores desafios é vencer o preconceito. “Muitos soropositivos ainda se escondem da família, da sociedade e até da própria ajuda. Eu sempre digo que elas e eles precisam sair desse esconderijo, já que a vida não acaba porque você descobriu essa infecção. Pelo contrário, a vida continua e precisa ser vivida de maneira integral e digna, onde essa pessoa seja amada, acolhida por sua família e pela sociedade”, afirma. 

Joana convive com o vírus HIV há 9 anos e nunca conseguiu contar para sua família, tendo receio de como eles passariam a enxergá-la. Morou na região Centro-Oeste algum tempo e lá desencadeou uma crise de ansiedade e depressão, após ser demitida por ser soropositiva. “Eu trabalhava como empregada doméstica e a mãe da minha patroa era enfermeira num hospital que tratava de pessoas com HIV/AIDS. Ela me viu fazendo exames de rotina e quando cheguei ao trabalho à tarde, ela e a filha me demitiram por ser soropositiva. A justificativa foi que ela tinha uma criança pequena e que eu manuseava com faca na cozinha e por isso eu não poderia trabalhar mais lá. Foi aí onde desencadeou meu processo depressivo. Foi muito forte pra mim na época. Até comida pra minha filha eu não queria fazer, porque achava que ia matá-la”, desabafa. 
                                         

Atividades

 

 

Além da acomodação, a Casa de Convivência oferece atividades culturais, atendimento psicológico, acompanhamento de assistentes sociais para entender sobre seus direitos, atividades manuais como produção de peças artesanais com material reciclável, trabalhos de minijardins com cactos e plantas suculentas e fabricação de uma série de medicamentos com plantas medicinais. Cursos e oficinas profissionalizantes também são realizadas ao longo do ano. 

A participação nos cursos, as atividades culturais e o suporte psicológico foram transformando a vida de Joana. “Eu fui me reerguendo, me renovando como mulher, como pessoa, como mãe. Porque eu me sentia uma fracasso. Eu procurei acreditar em mim e dizer: não vai ser uma sorologia que vai me impossibilitar. O HIV existe mas não é uma sentença de morte. O que nos mata aos poucos é o preconceito. Eu percebi na terapia que para além do preconceito das pessoas, existia o preconceito em mim. Quando eu tratei o preconceito que estava aqui, na minha cabeça, eu mudei a visão”. E concluiu sorrindo: “Eu me aceitei. Hoje sou uma pessoa feliz e realizada e quero ir além em todos os sentidos: profissional, pessoal, emocional. E esse suporte todo tenho na casa de convivência, tenho essa acolhida e esse amor”.  

São sete pessoas que se dedicam a acolher, auxiliar e dar esperança aos mais de duzentos cadastrados na Casa de Convivência João Paulo II, que conta com mais de 20 leitos para acomodação das pessoas que realizam tratamento nos hospitais da capital. “Os leitos são destinadas às pessoas que vem de outras cidades, porque eles precisam ficar uns dias em João Pessoa para a realização de consultas e exames e gastariam de quatro a oito horas de viagem para retornar as suas casas”, destaca Goretti.

Campanha Dezembro Vermelho

A campanha Dezembro Vermelho tem o objetivo de conscientizar a população sobre uma das doenças que mais matam no mundo. O principal intuito da campanha é informar sobre sintomas, perigos e formas de contágio e prevenção da AIDS, além de combater o olhar preconceituoso sobre os portadores da doença. Em 1987, a ONU criou esta campanha e, em 1991, a fitinha vermelha surgiu com artistas de Nova York, para lembrar a luta contra a AIDS e transmitir compreensão, solidariedade e apoio aos portadores do vírus HIV. No Brasil, o projeto foi adotado em 1988, pelo Ministério da Saúde.