Deus se comunica com o seu povo através da Palavra


 07/10/2015 - Publicado no Caminhando Juntos (set/2015)

Hoje, mais do que nunca, nós somos chamados a fazer um projeto missionário de Evangelização que possibilite às pessoas o encontro pessoal com Jesus Cristo. O povo tem sede e quer se encontrar com Deus, e busca na Igreja, nos grupos religiosos, nos movimentos, nas comunidades, respostas para essas buscas profundas do encontro com Deus. E nesse sentido a Bíblia é o tesouro. Deus se comunica conosco através da Palavra. Evidente a palavra da vida, mas especialmente nós proclamamos ser a Palavra de Deus. Nós contemplamos na Bíblia a própria Palavra de Deus que nos é revelada. Deus se comunica com o seu povo através da Palavra.

A comunidade cristã deve oferecer às pessoas o encontro com a Palavra de Deus. E esse encontro não pode ser o encontro de pessoas que querem estudar a Palavra apenas do ponto de vista intelectual. Não pode ser uma busca de aproximação à Palavra de Deus, à Bíblia, à Sagrada Escritura, por curiosidade ou para se conhecer, defender-se dos ataques de outros grupos religiosos. Penso que o Sínodo sobre a Palavra de Deus deixou-nos um grande legado: a necessidade da leitura orante da Palavra de Deus. Nós precisamos construir comunidades que sejam lugares onde as pessoas encontram e fazem a experiência de Deus, e essa experiência se faz com a Palavra.

Edificar em torno da Palavra
Neste mês de setembro nós vamos olhar com mais intensidade do que os outros meses para a Palavra de Deus. Será talvez uma grande oportunidade para que as pessoas busquem e comecem a participar ou até que criem grupos de leitura orante, ou encontros bíblicos em família, nas ruas, nas comunidades - são os Círculos Bíblicos como chamamos há muito tempo. Penso que aqui estamos tocando na possibilidade que a Igreja tem de criar comunidade de comunidades. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) aponta-nos a necessidade de renovarmos nossas paróquias, renovarmos a nossa atividade pastoral, escutando aquilo que o Papa Francisco tem apontado pra gente: “uma Igreja em saída”. É evidente que uma “Igreja em saída” é uma Igreja que sai de si, que vai ao encontro das pessoas, do povo, é uma Igreja da Palavra, é uma Igreja que se alimenta da Palavra. Então, eu não tenho nenhuma dúvida de que um dos grandes desafio das Igreja no momento atual é criar comunidade de comunidades. E essas comunidades de comunidades edificam-se em torno da Palavra. Eu diria que nos últimos 30 anos em que acompanhei muitos grupos de leigos, de estudo, de reflexão, os mais variados em torno da Palavra, com muita franqueza, que a Igreja Católica tem uma “dívida” no momento atual.

Nós temos uma explosão de gente que começa a morar em torno das grandes cidades, as quais chamamos de periferias das grandes cidades. É gente que vem do interior, gente que vem migrando, chegando e muitas vezes nós não chegamos a essas pessoas. A forma adequada, uma forma especial, uma forma - eu diria assim - bela e evangélica de se encontrar com essas pessoas é a Palavra de Deus. É chegar e fazer com essas pessoas grupos de meditação e reflexão de partilha da Palavra de Deus. Assim, eu diria que tem uma grande importância, seria mais uma convicção do meu coração, que as Comunidades Eclesiais de Base têm uma grande importância, na medida em que elas podem surgir lá onde estão os pobres mais pobres, e a Igreja não consegue chegar a elas. É o povo de Deus que se encontra lá entre os pobres mais pobres, para em comunidade meditar a Palavra de Deus. Isso deve ser um caminho importante para a edificação da Igreja de Cristo no nosso tempo, que é se fazer presente no meio dos pobres para anunciar o tesouro que nós carregamos que é o Evangelho de Jesus Cristo. Mas isso deve se fazer de uma forma especial, com muita comunhão, com muita comunicação. E assim, eu diria, que é um sonho nosso, é uma busca nossa e tem sido um esforço muito grande da comissão das CEBS da nossa Arquidiocese, de realizar os Círculos Bíblicos, de possibilitar e fazer os encontros bíblicos. A cada mês nós divulgamos aqueles encontros que as pessoas podem realizar. É tudo feito com muito esforço para possibilitar um instrumento para que as pessoas encontrem-se na base, no campo, na cidade, com os pobres, e fazer com que os pobres possam conhecer e tocar a Palavra de Deus.

Círculos Bíblicos
O Círculo Bíblico é uma reunião de um grupos de pessoas. A palavra “círculo” aponta para comunhão de irmãos e irmãs, o povo que é comunidade. E “bíblico” é porque a característica é em torno da Bíblia. A Bíblia atrai-nos, ela é luz para o nosso caminho. E essa Palavra de Deus é meditada em comunidade, no Círculo Bíblico, mas eu diria assim como uma coisa muito importante - a leitura feita a partir da vida. A Palavra de Deus é-nos revelada para iluminar a vida da gente. Então não posso ler a Palavra de Deus sem trazer a realidade e a situação da vida das pessoas.

Como é importante olhar para a vida das pessoas, especialmente dos mais pobres e ler com eles a Palavra de Deus. Não simplesmente para multiplicar os comentários a respeito da situações mais dolorosas da vida, mas para olhar para situações humanas e tentar iluminar essas situações com a Palavra de Deus. O que diz Deus a respeito de nossas vidas? Então isso é uma forma de dar consolo, esperança e de abrir a consciência das pessoas para a ação permanente de Deus em suas vidas e na vida de nossas comunidades. Então, eu diria que o Círculo Bíblico nasce como numa tentativa da gente reunir o povo em torno da Palavra de Deus, mas ele vai forjando, vai criando comunidade e ao mesmo tempo em que comunidade existe para gerar povo que se reúne, que se alimenta da Palavra de Deus.

Função do Círculo Bíblico
Uma primeira e importante função do Círculo Bíblico é ser um instrumento, o que é algo muito importante, pois quem participa convive com todo tipo de gente. Conheço pessoas que participam do ECC, de vários grupos da Igreja e que utilizam material do Círculo Bíblico. Mas é evidente que nas comunidades, onde estão os mais pobres, o Círculo chega e é feito com uma linguagem que tenta adequar-se ao universo dessas pessoas. E o Círculo Bíblico tem essa característica de preservar a comunicação oral, porque nós temos ainda muita gente que tem dificuldades com a leitura, mas tem sabedoria, experiência na vida, espírito santo, luz de Deus, que pode comunicar, às vezes não consegue ler, mas escuta, comunica.

O Círculo Bíblico é, por sua natureza, uma leitura oral da Sagrada Escritura, onde se partilha aquela experiência que se vai fazendo em torno da Palavra de Deus. Hoje um dos grandes desafios da Igreja é se comunicar com os pobres. A gente utiliza tantas mídias, plataformas digitais, mas existe tanta gente pobre que no cotidiano a comunicação dá-se de forma presencial, por contato. E ai está o maior desafio da Igreja: a sua capacidade de se fazer entender pelos pobres. Nós falamos e respondemos sobre questões que ninguém nos perguntou. A Igreja precisa escutar o clamor, as perguntas dos pobres, mas para isso tem que fazer essa aproximação com os pobres para escutar essas perguntas. E a resposta nós vamos buscar na Palavra, junto com os pobres, com as pessoas que estão nos questionando.

Sentir-se em casa
A migração religiosa que alguns apontam como fenômeno muito importante, hoje, ela se dá muito em torno das pessoas pobres, pois elas precisam se sentir em casa na Igreja. A Igreja tem que ser, como assim dizia João Paulo II: “Casa e Escola de Comunhão, Casa e Escola de Oração”. Mas o Papa dizia, quando escreveu isso, numa de suas Encíclicas, que os pobres têm que se sentir na Igreja como se estivesse em casa, mas não na casa literalmente dita, mas sim na linguagem, na comunicação, é importante a gente se sentir em casa, ou possibilitar que os pobres se sintam em casa - quanto a isso o Círculo Bíblico é um elemento de comunicação com os mais pobres.

É importante também a gente não esquecer que aqui aparece uma espécie de riqueza imensa que a CNBB tem oferecido-nos que é um livreto para se fazer a leitura orante da Sagrada Escritura, e isso é feito em comunidade. Eu tenho andado em paróquias, em grupos e a gente tem feito uma espécie de oficina, de encontro, de treinamento, escutando o depoimento das pessoas, e isso é uma coisa impressionante. Neste mês de setembro vamos fazer esses encontros bíblicos nas comunidades, nos grupos, e isso é de uma riqueza imensa. Eu gostaria, com muita honestidade e alegria, dizer que Deus não abandona sua Igreja e não abandona seu povo. E Deus pede a nós, hoje, que possamos fazer uma Igreja cada vez mais capaz de sair de si e se encontrar com as massas e com as pessoas que buscam e têm sede de Deus. Precisamos dessa atitude missionária e o Círculo Bíblico já é essa Igreja em missão, pois quando as pessoas começam a se reunir saem de suas comunidades, visitam os pobres, as casas, a gente começa a criar comunidade, uma vida com muita intensidade.

Guardar no coração a Palavra de Deus
Aqui na Arquidiocese uma coisa que nós temos nos preocupado de modo particular é que o Círculo Bíblico acompanhe muito o Evangelho dominical. Eu fico imaginando: para os pobres, basta entender e guardar o Evangelho de cada domingo. Então tentamos fazer com que o Círculo Bíblico seja um Círculo Bíblico do Evangelho dominical, para viver a Palavra. O Círculo Bíblico não é estudo, não é sala de aula onde se estuda Bíblia, é a meditação orante a partir da vida em torno da Palavra de Deus, como assim fez Maria - guardar no coração a Palavra de Deus. Como dizia Lucas: Maria guardava meditando essas coisas, os fatos, a vida de Jesus em seu coração. Nós devemos ser e ter essa Igreja, a Igreja que faz a memória viva de Jesus, que atualiza a memória de Jesus na vida das pessoas, e isso nós fazemos através no Círculo Bíblico.

No Círculo Bíblico, Jesus se torna presente atual, torna-se contemporâneo a nós. Eu fico imaginando nas nossas comunidades, nas comunidades distantes, nos sítios, nas favelas, as pessoas reúnem-se, ficam meditando, tendo essa aproximação com Jesus, com sua Palavra, guardando para si essa imagem bondosa, misericordiosa, compassiva de Jesus, que quer que seu povo tenha vida e tenha vida em plenitude.

Então, meus irmãos e minha irmãs, eu quero desejar a todos vocês um mês de setembro muito frutuoso, onde cada um de nós possa se aproximar com mais intensidade da Palavra de Deus, e a partir daí criar comunidades missionárias, pequenos núcleos, pequenas comunidades que vão multiplicando a presença de Jesus e de sua Igreja, em meio aos mais pobres, em meio às pessoas que estão nas periferias físicas e existenciais. Para isso, o Círculo Bíblico é um tesouro que Deus deu a sua Igreja. A todos vocês eu desejo um Mês da Bíblia cheio de graça, um Mês da Bíblia abençoado. Que a Bíblia torne-se de fato, para nós, no hoje de nossas vidas, lâmpada para nossos pés e luz para nosso caminho, como diz o salmista.


Fonte:

Mons. Virgílio Bezerra de Almeida, Vigário Geral da Arquidiocese da Paraíba

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