O católico não gosta de ler a Bíblia?


 09/09/2015 - Artigo publicado no Caminhando Juntos (set/2015)

A nossa Igreja, no Concílio Vaticano II, fez um lindo documento sobre a Palavra de Deus chamado “Dei Verbum”, que nos fala da importância da Bíblia para os cristãos e como devemos lê-la, interpretá-la e vivê-la. Orienta: “A sagrada Teologia apoia, como em seu fundamento perene, na Palavra de Deus escrita e na sagrada Tradição, e nela se consolida firmemente e sem cessar rejuvenesce-se, investigando, à luz da fé, toda a verdade contida no mistério de Cristo. As Sagradas Escrituras contêm a Palavra de Deus, e, pelo fato de serem inspiradas, são verdadeiramente a Palavra de Deus; e por isso o estudo destes sagrados livros deve ser como que a alma da sagrada Teologia. Também o ministério da Palavra, isto é, a pregação pastoral, a catequese, e toda a espécie de instrução cristã, na qual a homilia litúrgica deve ter um lugar principal, com proveito, alimenta-se e se santamente revigora com a Palavra da Escritura” (Dei Verbum 24).

As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, 2015-2019, recomenda:
49. “O Discípulo missionário é convidado a redescobrir o contato pessoal e comunitário com a Palavra de Deus como lugar privilegiado em encontro com Jesus Cristo”.
96. “Em todos os níveis da ação evangelizadora sejam criadas e fortalecidas equipes de animação bíblica da pastoral”.

Depois do Concílio Vaticano II houve muito esforço da Igreja no Brasil para colocar a Bíblia nas mãos do povo e o fundamento bíblico em toda a vida pastoral da Igreja local. Apesar deste esforço em décadas passadas, notamos hoje que é necessário renovar aquele ardor com a Palavra de Deus e vivenciar um novo ímpeto na formação de nossas lideranças e do povo de Deus em geral, a partir da Bíblia.

Rede Palavra: como tudo começou?
Começou com algumas indagações que surgiram na nossa prática pastoral. Vimos que os leigos tinham um conhecimento muito superficial da Bíblia, que os nossos cursos de Bíblia e teologia pastoral pareciam não trazer resultados práticos para a ação dos leigos em nossa paróquia. O que estava acontecendo?
Alguns alertas:
1) Um dia, conversando com um garoto de 12 anos, filho de uma amiga, ambos evangélicos, ele me disse: padre, eu me batizei. Eu disse: que bom, agora você é um verdadeiro cristão. E perguntei: você sabe algum salmo da Bíblia? Ele respondeu: sei sim, quer que eu diga? Eu disse: sim. Ele falou o salmo número 1 todinho, de uma vez só. Eu pensei, admirado, quantas crianças nossas sabem um salmo de cor? Eu sei? Os adultos de minha paróquia sabem? Meio envergonhado comigo mesmo, disse: vou aprender alguns salmos de cor. Voltei pra casa e só descansei quando aprendi os salmos 1, 23 e 26 e o Magnificat, de cor. Hoje já sei também o 51 e estou aprendendo o salmo 91. Deus me deu um alerta através daquele garoto!

2) Observei que os coroinhas de minha paróquia, São José Operário, às vezes, ficavam até dez anos no grupo. No entanto, quando saiam, desapareciam da comunidade e não participavam de outros grupos. Por que isso? Pesquisando, vi que a formação de coroinhas era muito fraca, voltada para ritos do altar e algo de sacramentos, nada de Bíblia. Matutando, introduzi a Bíblia com a seguinte exigência: se eles não ficarem na comunidade, pelo menos vão sair conhecendo mais sobre a Palavra. Organizei um curso onde eles deveriam aprender a manusear a Bíblia, saber de cor o nome dos 73 livros e os salmos 1, 23 e 26 e ainda o Magnificat; além dos sacramentos e liturgia. No começo foi difícil, diziam: é muita coisa, não entra na cabeça; eu só quero ser coroinha, pra que estudar Bíblia? Insistimos e depois de uns anos, hoje, temos muitos ex e atuais coroinhas na catequese, na crisma, nos grupos de jovens e outros. Na catequese, os coordenadores dizem: “são os mais bem formados catequistas que temos”.

3) Decidi que era hora de saber se as nossas lideranças conheciam a Bíblia. Fiz um questionário com 10 questões como estas: 1) O que significa a palavra Bíblia? 2) Quem escreveu a Bíblia? 3) Em quais línguas foi escrita a Bíblia? 4) Quantos livros têm a Bíblia? 5) Como são chamadas as duas grandes partes da Bíblia? Aplicamos esse questionário com vários tipos de liderança e o resultado foi desanimador. A maioria dos questionários ficou incompleta, alguns só com duas ou três respostas e vários questionários sem respostas.

Algumas perguntas surgiram:
Por que as nossas lideranças e o povo, em geral, têm tão pouca cultura bíblica? Será que os cursos que fazemos não correspondem às necessidades dos leigos? Será que a metodologia que usamos não atinge as pessoas? Será que os católicos não gostam mesmo da Bíblia? Será que é por causa da formação escolar pública deficiente?

Com esses questionamentos fui partilhando estas descobertas com alguns agentes de pastoral da paróquia e da nossa região pastoral. Resolvemos montar um curso básico de Bíblia e aplicar nas paróquias. Decidimos também formar um grupo de pessoas que gostam do estudo e ensino da Bíblia e, a partir dessa experiência, fundamos a Rede Palavra. Alguns irmãos foram chegando: Pe. Elvis, Ringsson de Toledo, Jocemar Bezerra e Frei Fracieudes. O nosso primeiro curso sobre as questões básicas da Bíblia, com cinco encontros, foi aplicado em 11 paróquias da nossa Região Pastoral Urbana Sul. Mais de 2 mil pessoas participaram.

Para a nossa alegria, as pessoas que participavam dos cursos ficavam animadas, perseveravam e ainda traziam mais pessoas. Uma senhora de Bayeux falou: no primeiro dia eu vim só para representar o meu grupo e pensei que se não gostasse não voltaria. Gostei tanto que ao chegar em casa reuni minha família e fui estudar com ela o folheto que recebi. Meus parentes gostaram muito e foram comigo no outro dia e fizemos o curso todo. Eram cerca de dez pessoas. Isso também se repetiu nas outras paróquias. Outros cursos foram sendo organizados: o Evangelho Segundo Marcos, o Evangelho Segundo Lucas, Atos dos Apóstolos e já estamos organizando os Evangelhos de Mateus e João. Os padres de nossa região, depois que perceberam a importância desta ação, comprometeram-se com os cursos e a maioria participou o tempo todo. O apoio deles tem sido fundamental.

Algumas respostas foram chegando:
O nosso povo gosta de ler a Bíblia se houver quem o ajude a ler a partir de seu lugar, seu momento, sua vida; quem o empolgue e o seduza com a Palavra. A maioria dos cursos que organizávamos anteriormente dava muita atenção à interpretação da Bíblia, mas não levavam as pessoas a conhecer os textos completos. Nós não abrimos mão da interpretação ou exegese bíblica, mas queremos que as pessoas conheçam o texto todo. Encontramos catequistas com mais de 20 anos de missão que não sabiam quantos livros tem a Bíblia e não sabiam a ordem certa dos Evangelhos. Descobrimos que a grande maioria dos nossos animadores nunca leu os Evangelhos todos. As pessoas foram introduzidas na Bíblia para procurar leituras. E hoje, com o uso dos livros de liturgia diária, nós estamos deixando de manusear o Livro Sagrado.

Nossa formação fala muito da Bíblia, mas não nos faz compreender como formar o povo na Palavra. Pensamos que só quem pode dar cursos de Bíblias são doutores. O povo diz: a Bíblia é muito difícil, só quem a compreende são padres e teólogos. As pessoas parece que têm medo de ler a Bíblia. Parece que insistimos muito em dizer que o leigo deve ter cuidado com a leitura bíblica para não fazer uma leitura superficial e fundamentalista. Lembrando com insistência que é preciso pedir orientação ao padre, ao seminarista, que as pessoas comuns acham que é coisa muito difícil ler a Bíblia, coisa de gente estudada. Como fazer uma leitura básica da Bíblia, hoje? Qualquer pessoa pode fazer, as Bíblias pastorais têm boas introduções dos livros e um roda-pé suficiente para uma leitura simples. Os leigos devem e podem ler a Bíblia. Ou não?

Outro aspecto é que, como os evangélicos usam muito a Bíblia para afirmar sua identidade, nós achamos que a característica dos católicos são as imagens e o Terço. Será que a Bíblia não é também dos católicos? Parece que se criou um distanciamento da Bíblia. Será que pode haver evangelização sem a Palavra? Notamos que muitos programas de catequese de crianças, jovens e adultos, dão uma atenção muito pequena ao estudo da Bíblia. Uma catequista muito boa e comprometida resolveu dar um presente a cada criança que terminava a catequese, no fim do curso. Fez uma campanha com parentes e amigos e comprou uma Bíblia para cada criança. No dia da 1ª Eucaristia deram os presentes. Mas alguém perguntou: vocês ensinaram as crianças o manuseio da Bíblia? Usaram a Bíblia na catequese? E aquela catequista, muito preocupada, percebeu que os presentes foram ótima iniciativa, mas que deveria trabalhar para que as próximas turmas tivessem a Bíblia desde o começo da formação. Deus falou através da Palavra.

Os cursos que muitas vezes realizávamos nas paróquias eram do estilo do Seminário Teológico. Numa semana queríamos ver tudo da Bíblia com os leigos que nunca leram um único livro da Sagrada Escritura. Os cursos privilegiavam as sínteses tomando temas ou leituras descontínuas, nunca se lia o texto todo, em canto nenhum: nem em casa nem na catequese nem nos grupos. Onde é então que as pessoas vão aprender e exercitar a leitura bíblica?

Vimos que muitas famílias já possuem a Bíblia em casa, mas não sabem manuseá-la ou a usam pouco - no geral para procurar leituras. Se perguntarmos em qualquer reunião de lideranças: quantos de vocês aprenderam a ler a Bíblia com a família, vamos ver que o número é mínimo. E se a família não lê em casa a Bíblia, ainda fica mais claro que nas famílias católicas falta uma boa evangelização bíblica familiar.

Com as primeiras conclusões que fomos levantando, podemos dizer que é necessário uma conversão à Palavra de Deus de todos nós formadores, em vista da nossa missão. Não podemos aceitar que os nossos paroquianos fiquem sem uma formação básica da Bíblia de qualidade. Não podemos!

Foi devido à boa formação bíblica que Jesus tinha que conhecia tão bem as Escrituras e sabia usar com sabedoria os seus textos. As pessoas diziam: ele fala com autoridade, de onde lhe vem esta sabedoria? Alguns o chamavam de Rabi ou Mestre. Ele conhecia a Palavra e se fez Palavra viva.

Por que está se perdendo essa tradição? Será que devemos aceitar esta realidade sem reação? O que cada um de nós pode fazer para colocar a Palavra de Deus como Luz para o Caminho? Pense e invente, não tenha medo de ousar.

Côn. Marcílio Cavalcanti
Equipe da Rede Palavra


Fonte: CJ set/2015

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