Paixão e cruz


 09/04/2017 - Escrito para o Correio da Paraíba

Inicia-se a Semana Santa com a celebração do Domingo de Ramos. Na Liturgia, os fiéis vivem o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Celebrar é viver esse mistério à luz da fé e isso acontece ao longo do Ano Litúrgico. Uma celebração difere de uma dramatização, de uma encenação. É fácil perceber a diferença: a encenação da Paixão de Cristo, como a que se realiza em Nova Jerusalém e nas comunidades, não deixa de ser uma boa catequese, um bom momento de evangelização porque tem como centro a pessoa de Cristo. Ao assistir a uma encenação, a pessoa pode sentir-se envolvida, emocionalmente. Em se tratando de uma celebração, como a da Sexta-feira Santa, os fiéis vivem o mistério celebrado; assim, mais do que o aspecto emocional, são convidados a participar através da oração. Na Semana Santa, a celebração do Tríduo Pascal tem um lugar especial - Quinta-feira Santa (instituição da Eucaristia e do sacerdócio), Sexta-feira Santa (Paixão e Morte) e Sábado Santo (Vigília Pascal).

São Paulo ensina que a Paixão de Cristo continua na sua vida e na vida da Igreja: “Agora, eu me alegro de sofrer por vocês, e completo em minha carne o que falta nas tribulações de Cristo em favor do seu corpo, que é a Igreja” (Col 1, 24). Nessa linha, Pascal, um pensador francês, escreveu: “Jesus estará em agonia até o fim do mundo”. A paixão e a cruz continuam na vida do povo e, na Semana Santa de 2017, têm um rosto próprio no mundo; considere-se, por exemplo, o drama dos prófugos de países do Oriente Médio e da África, morrendo aos milhares em naufrágios marítimos; os atentados em diversas cidades do mundo; a crise institucional em algumas nações, como a Síria, com a exterminação da população, numa interminável crise civil; a Venezuela, com o conflito entre os poderes, com efeitos danosos na vida do povo; o Brasil, com a crise econômica e os repetidos registros da corrupção, com muitas faces e muitos protagonistas.

Sem dúvida, a paixão e a cruz da população brasileira estão relacionadas com a crise econômica; um exemplo é o desemprego em massa que traz muitos problemas para pessoas e famílias; a corrupção também é uma das causas do sofrimento, da paixão e cruz da população, haja vista o caso do Estado do Rio de Janeiro. Algumas políticas públicas que estão sendo propostas pelo governo também têm a face da paixão e cruz do povo brasileiro. A Reforma da Previdência é uma delas. A CNBB, através do Conselho Permanente, “manifesta apreensão com relação à proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287/2016, de iniciativa do Poder Executivo, que tramita no Congresso Nacional”. A CNBB admite que “o sistema da Previdência precisa ser avaliado e, se necessário, posteriormente adequado à Seguridade Social”. Todavia, alerta para que esse assunto seja tratado com transparência: “Os números do Governo Federal que apresentam um déficit previdenciário são diversos dos números apresentados por outras instituições, inclusive ligadas ao próprio governo. Não é possível encaminhar solução de assunto tão complexo com informações inseguras, desencontradas e contraditórias. É preciso conhecer a real situação da Previdência Social no Brasil. Iniciativas que visem ao conhecimento dessa realidade devem ser valorizadas e adotadas, particularmente pelo Congresso Nacional, com o total envolvimento da sociedade. (...) Ao propor uma idade única de 65 anos para homens e mulheres, do campo ou da cidade; ao acabar com a aposentadoria especial para trabalhadores rurais; ao comprometer a assistência aos segurados especiais (indígenas, quilombolas, pescadores...); ao reduzir o valor da pensão para viúvas e viúvos; ao desvincular o salário mínimo como referência para o pagamento do Benefício de Prestação Continuada (BPC), a PEC 287/2016 escolhe o caminho da exclusão social”.

A Paixão e a Cruz de Jesus tiveram como capítulo final a sua vitória, a Ressurreição. Por sua vez, a paixão e a cruz do povo devem preceder a sua vitória, a conquista de seus direitos.

Dom Genival Saraiva
Administrador Apostólico da Arquidiocese da Paraíba

 


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