Alegria popular


 26/02/2017 - Escrito para o Correio da Paraíba

A respeito do carnaval escreveu Dom Helder: “Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo: uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Brinque meu povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que quarta-feira a luta recomeça. Mas, ao menos, pôs-se um pouco de sonho na realidade dura da vida!”.

Graças ao seu agudo espírito de observação, Dom Helder, certamente, fez sua leitura do carnaval no Ceará do seu tempo. Essa leitura foi enriquecida por ter vivido muitos anos no Rio de Janeiro, onde se evidenciam a variedade das manifestações, a versatilidade das escolas de samba e a criatividade dos seus protagonistas. Seguramente, falaram a sua sensibilidade pastoral a originalidade do carnaval recifense, o frevo “demasiadamente acelerado”, com suas raízes históricas, a agilidade dos passistas, a “comunicabilidade” de suas melodias e outras manifestações folclóricas, tipicamente populares. Portanto, o carnaval genuíno falou ao seu coração de padre e bispo porque via nele a alegria do povo.

Na realidade, a alegria popular é eloquente porque nela existe a verdade do sentimento e é cativante em razão da autenticidade de suas manifestações. Muitas pessoas, muitas famílias participaram e continuam participando do carnaval, sadiamente, com responsabilidade e, portanto, com alegria verdadeira. Historicamente, o carnaval foi e é um “fenômeno popular-social que concretiza a contestação e a irreverência através de vários modos: ridicularização dos poderes constituídos, eliminação de distâncias sociais, inversão de mundos, profanação do sagrado, ocupação desordenada dos espaços públicos deslocando o curso habitual da vida, etc. - tudo isso como espetáculo alegre, onde o riso tem a função catártica de fazer esquecer o mal-estar que os homens impuseram-se para conviver socialmente e de forma civilizada”.

Dom Helder não desconhecia a outra face do carnaval - a dos excessos que têm uma face moral e social. Obviamente, não há lugar para generalização. Mas, no contexto atual, não há como não se reconhecer que, no período do carnaval, são cometidos muitos excessos de natureza moral e social que comprometem a dignidade e a segurança das pessoas. A relativização dos princípios e a liberalização dos costumes têm como consequência lógica a degradação moral que afeta a família e a sociedade. Nesse sentido, a acentuação do hedonismo na sociedade tem como efeito imediato a banalização do sexo que é estimulada por muitas vias; os registros de estupros e de gravidez de adolescentes têm estatísticas mais altas no período do carnaval. Com o passar dos anos, muitos excessos, como o uso de drogas, constituem a causa da violência social; o aumento do consumo de bebidas alcoólicas causa muitos acidentes de trânsito, com hospitalizações e mortes, provocando sofrimento nas famílias e se tornando problema de saúde pública, inclusive com elevados custos financeiros. Por tudo isso, na forma e no contexto de sua realização, não se pode dizer que o carnaval tem a linguagem que Dom Helder identificava naquele de seu tempo, o tempo dos “memoráveis carnavais”.

Já é um fato, hoje, a opção de muitas famílias por um período de repouso, em busca de tranquilidade, ao invés das folias do “Rei Momo”. Muitas pessoas e grupos religiosos optam pelo recolhimento e pela oração no período de carnaval; não se trata de uma iniciativa de “quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval”. Trata-se, sim, de uma maior atenção à espiritualidade, por parte de quem se sente em comunhão com Deus e com seus irmãos.

Dom Genival Saraiva
Administrador Apostólico da Arquidiocese da Paraíba





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