Sepultura e cremação


 30/10/2016 - Escrito para o Correio da Paraíba

O calendário litúrgico da Igreja Católica celebra a memória dos fiéis defuntos no dia 2 de novembro. Na Bula Misericordiae Vultus (O rosto da misericórdia), o Papa Francisco orienta os fiéis a praticarem as obras de misericórdia corporais, entre as quais está a de “enterrar os mortos”, e as obras espirituais - uma delas é “rogar a Deus por vivos e defuntos”. Em cada Missa há o “Memento dos mortos” - oração “em favor daqueles que adormeceram em Cristo”.

A Congregação para a Doutrina da Fé publicou, recentemente, a Instrução “Ad resurgendum cum Christo” (Para ressuscitar com Cristo), à respeito da sepultura dos defuntos e da conservação das cinzas, no caso de cremação. “A Igreja, que como Mãe acompanhou o cristão durante a sua peregrinação terrena, oferece ao Pai, em Cristo, o filho da sua graça e entrega à terra os restos mortais na esperança de que ressuscitará para a glória. Enterrando os corpos dos fiéis defuntos, a Igreja confirma a fé na ressurreição da carne, e deseja colocar em relevo a grande dignidade do corpo humano como parte integrante da pessoa da qual o corpo partilha a história. Não pode, por isso, permitir comportamentos e ritos que envolvam concepções errôneas sobre a morte: seja o aniquilamento definitivo da pessoa, seja o momento da sua fusão com a Mãe natureza ou com o universo, seja como uma etapa no processo da reencarnação, seja ainda como a libertação definitiva da ‘prisão’ do corpo. Por outro lado, a sepultura nos cemitérios ou noutros lugares sagrados responde adequadamente à piedade e ao respeito devido aos corpos dos fiéis defuntos, que, mediante o Batismo, tornaram-se templo do Espírito Santo e dos quais, ‘como instrumentos e vasos, serviu-se santamente o Espírito Santo para realizar tantas boas obras’. (...) Ainda mais, a sepultura dos corpos dos fiéis defuntos nos cemitérios ou noutros lugares sagrados favorece à memória e à oração pelos defuntos da parte dos seus familiares e de toda a comunidade cristã, assim como a veneração dos mártires e dos santos. Mediante a sepultura dos corpos nos cemitérios, nas igrejas ou em lugares específicos para tal, a tradição cristã conservou a comunhão entre os vivos e os mortos e se opõe à tendência a esconder ou privatizar o acontecimento da morte e o significado que ela tem para os cristãos”.

Em relação à cremação, eis o seu ensinamento: “Onde por razões de tipo higiênico, econômico ou social escolhe-se a cremação, escolha que não deve ser contrária à vontade explícita ou razoavelmente presumível do fiel defunto, a Igreja não vê razões doutrinais para impedir tal práxis, uma vez que a cremação do cadáver não toca o espírito e não impede à onipotência divina de ressuscitar o corpo. Por isso, tal fato, não implica uma razão objetiva que negue a doutrina cristã sobre a imortalidade da alma e da ressurreição dos corpos. (...) Na ausência de motivações contrárias à doutrina cristã, a Igreja, depois da celebração das exéquias, acompanha a escolha da cremação seguindo as respectivas indicações litúrgicas e pastorais, evitando qualquer tipo de escândalo ou de indiferentismo religioso. (...) Quaisquer que sejam as motivações legítimas que levaram à escolha da cremação do cadáver, as cinzas do defunto devem ser conservadas, por norma, num lugar sagrado, isto é, no cemitério ou, se for o caso, numa igreja ou num lugar especialmente dedicado a esse fim determinado pela autoridade eclesiástica. (...) Pelos motivos mencionados, a conservação das cinzas em casa não é consentida. (...) Para evitar qualquer tipo de equívoco panteísta, naturalista ou niilista, não seja permitida a dispersão das cinzas no ar, na terra ou na água ou, ainda, em qualquer outro lugar. Exclui-se, ainda, a conservação das cinzas cremadas sob a forma de recordação comemorativa em peças de joalharia ou em outros objetos, tendo presente que para tal modo de proceder não podem ser adotadas razões de ordem higiênica, social ou econômica a motivar a escolha da cremação”.

A reverência aos mortos inclui oração, em razão de sua imortalidade e futura ressurreição, e sepultamento ou cremação do corpo, em razão de sua dignidade.

Dom Genival Saraiva
Administrador Apostólico da Arquidiocese da Paraíba





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