Carnaval às custas de quem?


 02/03/2014 - Escrito para o Correio da Paraíba

O Tribunal de Contas do Estado deve realizar uma inspeção geral nos contratos firmados pelas prefeituras patrocinadoras dos festejos do carnaval. O objeto da inspeção é apurar a suspeição de que recursos destinados às obras públicas e, atualmente, ao enfrentamento das consequências da seca estejam sendo desviados às diversões milionárias, exploradas por empresários, cantores, animadores de bandas, trios elétricos. A paixão pelo carnaval, elemento cultural, não justifica que se subtraia dos cofres públicos o que é torrado de forma perdulária. As prioridades são outras, apontadas em sessões do orçamento democrático e participativo, na esfera estadual e nos governos municipais que o adotam, com a população consciente, corresponsável. Há municípios que sequer apresentam um Plano Plurianual (PPA), um planejamento de metas, um orçamento que se enquadre na Lei de Responsabilidade Fiscal.

Nos nove Estados do Nordeste o povo de Deus enfrenta uma das piores secas da história. Reportagens sucessivas constatam a falta de água para uso humano, animal e produtivo em centenas de cidades. O iminente colapso pede soluções emergenciais que antecedem as obras estruturais. O clamor da população desmoraliza-se ante os gastos perdulários com festejos carnavalescos. Gestores optam pela garantia da folia do povão. Povo empobrecido contenta-se com políticas de compensação. A gestão do atraso opta por diversão. Isso atrai a simpatia popular, garante-lhes votos e a manutenção no poder. Entanto, o que alavanca o progresso são investimentos em educação, em infraestrutura garantindo a profissionalização e a produção qualificada.

Que a seca motive o povo a reivindicar melhores condições e reais garantias para uma vida condigna, incluindo a capacitação para o trabalho. A formação da consciência dos direitos e deveres cidadãos deve cobrar dos gestores públicos o planejamento de metas, compromisso ético que supera a omissão política. A vida em primeiro lugar. Dinheiro público para festa: se sobrar. Eu aprendi a jamais trocar o essencial pelo secundário.


Dom Aldo di Cillo Pagotto, sss
Arcebispo Metropolitano da Paraíba

  •  Endereço: Palácio do Carmo - Praça Dom Adauto, s/n
    Centro - João Pessoa (PB)
  •  Fone:(83) 3133-1000
  •  E-mail: curia@arquidiocesepb.org.br
Twitter

© Mitra Arquidiocesana da Paraíba – Todos os direitos reservados