Ramos, rumos, rame-rame


 20/03/2016 - Escrito para o Correio da Paraíba

O povo acena a Jesus com ramos verdes nas mãos na sua entrada em Jerusalém, cidade onde doará definitivamente a sua vida para a reconciliação da humanidade. A plebe aclama Jesus como o “bendito que vem em nome do Senhor”. Poucos dias depois, a mesma plebe, manipulada pelos chefes religiosos, esbraveja a senha: “crucifica-o”! As mãos que acenam e afagam são as mesmas que sufocam e matam a voz da verdade, caso esta contrarie interesses inconfessáveis.

Os ramos verdes simbolizam a esperança dos corações. A gritaria simboliza a facilidade com que se instrumentaliza a massa popular. Gestos e palavras de gratidão, acolhimento, respeito, colaboração, transformam-se em desqualificação caluniosa e rejeição total. O “rame-rame” das trevas segue a estratégia da calúnia forrada de suborno. O poder religioso, subserviente à política partidária, segue o esquema da corrupção e, depois, da perseguição. Em nome do poder político partidário, abençoado pela ideologia do poder religioso, a verdade é sacrificada como bola da vez. O fascínio pelo poder e a ilusão do dinheiro compram consciências, fragilizam ou instrumentalizam o ser humano. Dificilmente o ser humano se convence do poder e do dinheiro como seguranças efêmeras, porque dependemos disso. Tornamo-nos lobos ferozes, destruímos vidas se nos faltar esse tipo de (pseudo) segurança.

Jesus foi condenado à morte de cruz, pena máxima para sublevadores da lei, inimigos do poder. Foi julgado e condenado de forma sumária por duplo motivo. Primeiro: afirmou ser filho de Deus. Segundo: afirmou ser legítimo pagar imposto ao imperador. Porém, não seria admissível igualar o imperador a um deus, de acordo com a inscrição da moeda, “divino máximo”. Somente a Deus se deve amar e servir, em espírito e verdade, servindo aos nossos semelhantes. Oportunistas defendem interesses escusos manipulando a lei, recorrendo aos casuísmos e legalismos. Assim fizeram e continuarão fazendo muitos políticos ou religiosos das insuspeitáveis instituições.

Nossa natureza deve ser educada na fé, na ética, na capacidade de conviver de forma construtiva, abrindo espaços para os outros, e não perseguindo ou até destruindo suas vidas. Caso contrário, reproduziremos crucificados, excluídos, explorados, descartados, mal amados. Judas se vendeu por 30 dinheiros, mas não foi longe. Enforcou-se. Na conversão permanente, encontramos o sentido da vida doada com alegria e gratuidade, não sem provações! Mesmo caluniado como blasfemo e inimigo do povo, Jesus continua a doar a sua vida.


Dom Aldo di Cillo Pagotto, sss
Arcebispo Metropolitano da Paraíba




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