Quaresma


 14/02/2016 - Escrito para o Correio da Paraíba

A Quaresma, 40 dias que antecedem à Páscoa da Ressurreição do Senhor, remete-nos aos primórdios do Cristianismo, quando as pessoas e famílias inteiras apresentavam-se às comunidades cristãs para serem batizadas, assumindo a vida cristã, comprometendo-se a viverem conforme o Evangelho de Jesus Cristo. Aos que se faziam seguidores de Jesus, passando do paganismo à fé cristã, dava-se o nome de catecúmenos, proveniente de catequese - o processo de iniciação e de acompanhamento na fé e na vida cristã. Os catecúmenos passavam por escrutínios, verificação dos sinais de verdadeira conversão e compromisso cristão. Deveria ser comprovada a atitude da vida transformada, orientada pelos valores do Evangelho e do comportamento moral, superando práticas contrárias ao amor de Deus e ao próximo.

O que significa, hoje, a Quaresma? Reflitamos sobre o processo de conversão e compromisso cristão. Esse processo não é tópico e episódico, mas é permanente na nossa vida cristã. Corresponde ao processo de purificação e de iluminação, cuja dinâmica evolutiva é a constante passagem do egoísmo ao amor. Isso nos leva à superação do fechamento em si, abrindo-nos aos semelhantes. A renúncia às formas de vingança e violência leva-nos à comunhão das liberdades, à construção de ambientes de colaboração e reciprocidade, à busca do bem pessoal e coletivo, superando o que divide, discrimina e exclui. O processo de conversão e compromisso é concreto, não utópico, abstrato, alienante.

Os 40 dias de tentações correspondem às provações que devemos enfrentar durante a vida toda, como o Mestre, levado pelo Espírito ao deserto para ser tentado e vencer toda tentação (Lc. 4, 1ss). A tentação resume-se em uma só: a busca e a satisfação do instinto egoísta. Por egoísmo explora-se, exclui-se e se destroi a vida dos outros. As formas de egoísmo levam o nome de concupiscência, manifestada na soberba (orgulho), avareza (acúmulo que exclui a comunhão de bens que gera inclusão e justiça), luxúria (uso e abuso do sexo desprovido de amor, respeito, compromisso), inveja (não é meu, então não pode ser de ninguém), gula (o peixe morre pela boca e nós também, quando não cuidamos da saúde), ira (espírito agressivo e vingativo que deseja o mal para si e para os outros), acídia (parasitas aproveitadores de situações, oportunistas, preguiçosos, corruptos).

Todos nós somos provados e tentados, porém impelidos pelo Espírito do Amor a vencer toda tentação, formando o caráter, disponibilizando nossos préstimos para que a vida seja abençoada e melhor para todos.


Dom Aldo di Cillo Pagotto, sss
Arcebispo Metropolitano da Paraíba




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