Ajudinha ou inclusão?


 16/01/2016 - Escrito para o Jornal da Paraíba

Dia 4 pp. encontrei, na Praça Dom Adauto, Dona Ana, de Alagoa Grande, com 4 filhinhos, sentada na porta da igreja do Carmo, pedindo ajuda. Ela me disse que ia ser recebida num programa de televisão. Esperou o dia todo. Seria atendida só no outro dia. Ela me pediu para passar a noite no adro da igreja. Eu a trouxe com os filhinhos para o pátio da Cúria e pedi socorro ao Pe. George, da Comunidade Filhos da Misericórdia, cuja obra é acolher meninas prostituídas ou viciadas, entre as quais muitas têm filhos de colo. São encaminhadas na vida, arrancadas da sina da miséria moral e material. Esse cenário reproduz-se pelo País com o desemprego crescente e com falta de perspectivas. Dona Ana me contou que o marido está desempregado. Empobrecidos, subempregados, à mercê de alguém que lhes incentive a conquistar uma vida melhor. Com certeza, dispostos a trabalhar. Qual é a missão do Estado? Eis a missão política dos que nos representam: garantir a proteção à vida das pessoas e famílias e incentivar a capacitação para o trabalho, único meio de conquistar uma vida digna. Que perspectivas o povo pobre tem, se o País se paralisou?

Verbas surrupiadas, destinadas aos serviços públicos essenciais de Saúde, Educação, Mobilidade Humana, foram parar nas mãos de corruptos. A crise política e socioeconômica contrasta com o alijamento da iniciativa privada e com verbas desviadas. Abandonados os valores e princípios éticos e morais, situações como a de Dona Ana traduzem o descaso de inúmeros políticos que pensam tão somente em se manter no cargo, sem preparo e competência para atender ao bem da coletividade. Dona Ana tem direito ao respeito à sua dignidade de trabalhadora, não ao paliativo.

Miséria, fome, pobreza, comove corações, sensibiliza as consciências, ativa o emocional, mexe com o complexo de culpa. O pobre sempre foi a falácia de políticos demagogos. Para chegar ao poder, montam seu esquema na compaixão pelo pobre. A Doutrina Social da Igreja baseia-se no Evangelho, não em falácia ideológica. Subtrai-se o pobre de situações intoleráveis de marginalização capacitando-o pelo trabalho, para a produção e renda. Inclusão faz-se com justiça social, partilhando o amor, a vida, o pão, promovendo sua dignidade, arrancando-o da exclusão e dos condicionamentos impostos pela sociedade. Pobre é a mentalidade atrasada, apegada ao egoísmo e mesquinhez. O desapego de si acontece com a partilha da vida e dos bens. Torna-se a condição de incluir muitos empobrecidos, marginalizados, excluídos. Isso se faz ensinando a pescar, não dando só o peixe. Pobres, sempre tereis entre vós (cf. Jo 12, 8).


Dom Aldo di Cillo Pagotto, sss
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