Meu Padim Ciço


 10/01/2016 - Escrito para o Correio da Paraíba

Padre Cícero Romão Batista, homem de Deus, homem do povo. Religioso e político, carismático e sábio, pensador prático, dotado de rara inteligência, estrategista e articulador reconhecendo o valor de pessoas, tornando-as lideranças. Fenômeno que atraiu milhares de romeiros ao Juazeiro do Ceará. Todos buscavam bênçãos e conselhos para superar duras provações. Padim Ciço falava ao coração do povo empobrecido, flagelado por estiagens e secas inclementes. Plantações de sequeiro resistiam graças aos seus conselhos, aprendendo a conviver no semiárido. Épocas ainda mais difíceis por causa do coronealismo que sempre dominou o Nordeste.

A imagem do profeta do Juazeiro está fixada no imaginário religioso popular até os dias de hoje. Após mais de 70 anos de sua morte, permanece a peregrinação de fiéis. Uns o veem como santo e outros como um profeta. Seu legado está cheio de iniciativas que livraram o povo da fome e miséria. Esse forte viés político provocou perseguições por parte de adversários, incluindo o pesadelo inquisitório por parte da hierarquia da Igreja. As coisas pioraram para o Padim quando uma beata sustentou um suposto milagre da “hóstia que sangrou em sua boca”. Na verdade a série de perseguições tinha a ver com o desenvolvimento da região do Cariri cearense. Esse foi um dos maiores milagres de Padim Ciço, político de invejável competência administrativa. Ele realizou a inclusão socioeconômica do povo empobrecido. Sua estratégia era ensinar ao povo pobre a sobreviver. A prosperidade do povo irritou os donos do poder político, além de mexer com a hierarquia eclesiástica.

Recentemente a Santa Sé reconheceu o Padim Ciço: “em sua complexa história humana, não privada de fraquezas e de erros. Sem dúvida alguma, ele foi movido por um intenso amor pelos mais pobres e por uma inquebrantável confiança em Deus. Ele teve, porém, que viver em um contexto histórico e social pouco favorável, empregando todas as suas forças e procurando agir segundo os ditames da sua consciência, em momentos e circunstâncias bastante difíceis. Se nem sempre soube encontrar as justas decisões a tomar ou se adequar às diretrizes que lhe foram dirigidas pela legítima autoridade, ele foi movido por um desejo sincero de estender o Reino de Deus” (trecho da Carta do Cardeal Parolin, a pedido do Papa Francisco).

O santo popular sofreu humilhações por anos a fio. Deus permite provações para amadurecer o caráter dos seus filhos. Eis o legado da santidade. O reconhecimento do povo supera qualquer ostracismo imposto.


Dom Aldo di Cillo Pagotto, sss
Arcebispo Metropolitano da Paraíba




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