Espiritualidade e Quaresma


 08/03/2015 - Escrito para o Correio da Paraíba

Cristo, ao assumir a sua missão pública, levado pelo Espírito ao deserto, ora e jejua por 40 dias. Deserto é o símbolo das provações. Oração e jejum são referências à absoluta necessidade da natureza humana ser socorrida e sustentada pela força divina, pois somos frágeis e limitados. Deserto é provação, quando não há em quem se apoiar e segurar senão em Deus. Cristo é tentado a se servir de sua condição divina para se mostrar acima de tudo e de todos, do bem e do mal. Em sua natureza humana, Cristo não aceita ser Deus deixando de ser homem. Vice-versa, Cristo não deixa de ser verdadeiro Filho de Deus para ser somente humano. As duas naturezas, distintas, humana e divina, estão indissociavelmente unidas na única pessoa do Verbo encarnado.

A tentação apresenta-se a Cristo desafiando a sua condição humana. A tentação é uma ilusão visionária a nos seduzir. São aparências e mentiras. Cristo foi tentado a se utilizar do poder para se favorecer, a se apossar do bem alheio, a usufruir de riquezas a serviço de si, e não dos outros. O inimigo sugere visões alucinantes. Transformar pedras em pães. Atirar-se no abismo para ser socorrido milagrosamente. Ter em suas mãos a posse de todos os reinos do mundo. Tentação semelhante sofreu nossa humanidade no paraíso. O inimigo reside em nosso interior cuja sugestão é irresistível: não se contente em ser simples humano. Seja Deus. Você é como Deus! É assim que nós construímos nossos ídolos, à imagem da semelhança de nossas paixões e interesses inconfessos.

Cristo resiste ao poder da tentação e a tentação do poder que, apesar do conteúdo ser o mesmo, apresenta-se em formas de ilusão - fazer do ser humano um deus, à semelhança dos próprios interesses. Cristo não aceita obrar milagre oportunista, a favor de si mesmo. Jamais abandonaria o ser humano, por Ele assumido para sempre. Cristo não aceita fingir que é homem. Não abandona o homem à mercê dos condicionamentos, fragilidades, limitações. Cristo assume a condição humana. Só o que foi assumido pode ser redimido! Na fraqueza humana o Senhor demonstra sua força divina. Na purificação de nossas paixões desordenadas, aprendemos as lições da vida. O aprendizado evolutivo toma o caminho da purificação das paixões e da iluminação interior. Custa muito para o ser humano compreender, aceitar, sobretudo viver o itinerário de fé, da esperança e do amor serviçal, da caridade, trilhando as sendas da conversão e do compromisso de transformação. Cristo dirá em síntese: convertam-se e creiam no Evangelho (Mc. 1,15).


Dom Aldo di Cillo Pagotto, sss
Arcebispo Metropolitano da Paraíba




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