Fanatismo


 25/01/2015 - Escrito para o Correio da Paraíba

O mundo indigna-se com os atentados terroristas, supostamente provocados pela sanha fanática, confundida como religião. Não há explicação racional que justifique a disseminação do ódio, por meio de atentados e massacres. No Níger, 2 mil cristãos foram barbaramente executados com requinte de crueldade. A execução dos cartunistas do “Charlie Hebdo” foi amostra de outras em vista. Como tolerar a irracionalidade ideológica fundamentalista? Há uma confusão entre ideologia intransigente e religião do tipo “eliminar o mal a qualquer custo, mesmo que eu mate ou morra”. Religiões sustentam dogmas que podem ser interpretados de forma equívoca ou ideológica.

Religiões são passíveis de interpretações fundamentalistas, invertendo crenças e valores, pervertidos em manifestações fanáticas. A mente humana adoece, engana-se, ilude-se. Encontra-se em sanatórios psicopatas que se julgam personagens reencarnados. Profetas do fim dos tempos, líderes, imperadores. Sucessores de Nero, Napoleão, Hitler. Fundamentalismos apregoam o céu ameaçando pobres mortais com o inferno. Terrorismo e fanatismo identificam-se como seita. Ideologias sectárias nada têm a ver com a fé, a espiritualidade, a mística. A verdade liberta, esclarece, ilumina, orienta, mas não ameaça. A verdade dói e cura, mas não agride. Disseminar ódio em nome de religião é obscurantismo. O conceito de religião é religar, atar, integrar.

Enquanto os muçulmanos tradicionais afirmam não aceitar o terrorismo, os chefes de Estados do Ocidente condenam-no explicitamente como crime praticado contra a humanidade. Esperávamos algum pronunciamento por parte de líderes de países formados por comunidades islâmicas, rejeitando esses crimes! O silêncio das lideranças muçulmanas pode ser interpretado como sua aprovação tácita aos atos inomináveis. Uma palavra esclarecedora seria de grande valia como oportunidade imperdível para conclamar a humanidade para construir ambientes de paz. Entanto a paz está ameaçada e negada. Cada um de nós pode e deve dar a própria contribuição para construir ambientes de paz. Podemos expressar livremente nossas opiniões, professar nossas crenças e valores, sem agredir e ameaçar os outros que são diferentes. O que não se pode nem se deve é provocar ódio por causa de religião ou crença filosófica. Falsa mística reveste-se de falso misticismo. Bem disse Einstein que “pouca ciência leva à negação da fé”. Entre a fé e a razão encontra-se o amor, construção de novas esperanças.


Dom Aldo di Cillo Pagotto, sss
Arcebispo Metropolitano da Paraíba




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