Lesados e agredidos


 17/01/2015 - Escrito para o Jornal da Paraíba

A violência provocada pelo narcotráfico articula-se com o tráfico de armas e de pessoas, incluindo a cooptação de adolescentes e jovens para o mundo do crime. A sensação de insegurança e terror deve-se ao fato da impunidade ao crime e à ausência da inteligência para reprimi-lo. Hoje, o crime organizado ramifica-se e se subdivide em gangues rivais. Criminosos aparelham-se e aprimoram seus métodos de ação, desafiando a segurança pública, tomando espaços reservados à vida dos cidadãos de bem. Espera-se que a inteligência busque respostas efetivas à altura, pois chegamos à versão brasileira da convivência com o terrorismo urbano e rural. Numa frase, tudo dito: ninguém sabe se chega vivo em casa. Soma-se ao clima de insegurança a impunidade ante o esquema de corrupção reinante. O povo brasileiro sente-se lesado e agredido o tempo todo. A situação assemelha-se à perda de direitos cidadãos. Corruptos e bandidos, impunes e soltos. Cidadãos de bem, logrados, aprisionados, inibidos.

Nosso sentimento de indignação contradiz-se ante nossa inércia. É mais cômodo criticar os outros, livrando-se do complexo de culpa por evitar tomar atitudes. Medo de retaliação e acomodação conivente, como sina e ocaso do destino. A natureza possui suas leis instintivas. Cedo ou tarde a natureza instintiva vinga-se. Deus perdoa sempre; o homem, às vezes; a natureza nunca. Quem não reage diante à corrupção chega o dia em que será vítima dela, por cumplicidade com o mal feito. É a lei do retorno, inata na natureza. O que aqui se faz aqui se paga. Eis a expressão do advogado do doleiro suspeito na operação “lava-jato” que apura os crimes de extorsão da Petrobras: “sem propina ninguém bota um paralelepípedo numa rua”. Corruptos conquistam foro de cidadania, bem instalados nas instituições e nos órgãos governamentais de nosso País.

Quem vota em corrupto vota na morte, porquanto as verbas do erário surrupiado destinar-se-iam aos investimentos prioritários em obras estruturantes. Estas garantem as oportunidades de desenvolvimento da população. Instituições e órgãos aparelhados, ocupados por oportunistas, inevitavelmente levam-nos ao atraso. O peixe começa a feder pela cabeça (ditado italiano). Nossa sensação é de nocaute quando vemos a disputa por cargos que deveriam ser ocupados por técnicos experientes, entanto lotados por representantes político-partidários, pensando em sua permanência, não no Estado. A ausência de formação de valores éticos resultou no cenário duvidoso que nos ameaça.


Dom Aldo di Cillo Pagotto, sss
Arcebispo Metropolitano da Paraíba




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