Românticos de Cuba


 16/11/2014 - Escrito para o Correio da Paraíba

Qual foi a razão da percentagem significativa de abstenções, de votos brancos e nulos, nas últimas eleições majoritárias? Fastio das urnas? Indiferença? Descrédito? Omissão? Realismo constatando a mudança das moscas, mas o lixo é o mesmo. Quem cala não consente. Metade do povo brasileiro não digere as coisas deixadas como estão para ver como ficam. Resignação doída preparando reações ao aparelhamento do estado pelo partido que está no poder. Gato acuado, silente, de olhar esguio, prepara o bote. Confiança traída. O malabarismo marqueteiro empurrou produto vencido, dentro da litúrgica democrática impecável. Falou-se muito em mudança para que nada mude. A proposta de mudança visa à reforma política e a democratização da mídia. Mudanças estruturais comportam em investimentos que comprometem os gastos com a máquina governamental aparelhada. Durante a campanha eleitoral, o partido que comanda o poder minimizou os fatos sobre a corrupção financeira, divulgados pela mídia. As investigações foram postergadas para que a imagem do governo não fosse prejudicada, comprovando seu comprometimento com o aparelhamento do estado.

Em função da própria hegemonia e interesses, o partido reivindica para si o direito de determinar o que é certo e o que é errado. Ou seja, o que é bom e o que seria mal para o partido. Daí a tentativa de impor por decreto (n. 8.243/2014) a criação de “conselhos populares”, com a finalidade de chancelar os interesses do partido. A Câmara já o derrubou. Óbvio, pois o Poder Legislativo desempenharia o papel de menino de recado, substituído por grupos de pressão (MST e dezenas de movimentos e siglas). Antecedendo a revolução comunista de 1917 na Rússia, Kerenski implantou esses “conselhos”. Lenin consagrou-os com êxito garantindo a ditadura bolchevista. O modelo visa o ideal totalitário, com aparente participação democrática. Organizações populares sustentam a ideologia do partido em troca do patrocínio financeiro do estado.

Quanto à democratização da mídia, trata-se de impor a censura e veicular o pensamento hegemônico. Olhem o que foi feito das manifestações de rua, em junho de 2012. Infiltraram-se baderneiros. Conseguiram esvaziar os protestos. Os sistemas de comunicação que se cuidem, pois a tentativa do partido é conseguir que se divulgue uma revolução cultural. O que seria isso? A veiculação do pensamento único em torno da educação, cultura e esporte, conscientizando as massas. Visionários idolatram utopias totalitárias, como românticos de Cuba.


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