Flores de finados


 02/11/2014 - Escrito para o Correio da Paraíba

Fazemos preces, levamos flores, de nossos olhos escorrem lágrimas como néctar das saudades. Conservamos a memória dos que estagiaram por aqui, alcançando o êxito final de sua trajetória terrena. Por aqui a vida passa num breve espaço de tempo. Um aprendizado básico, inicial, que nos prepara para o longo itinerário de aperfeiçoamento. Este sim é permanente e extrapola os limites materiais do tempo e do espaço. Os que cumpriram a primeira parte de sua missão deixam sulcos para novas semeaduras. Cabe-nos a tarefa de cuidar das flores e frutos que virão ao seu tempo. Um dia a mais e nós também estaremos nos despedindo da jornada terrena. Legamos aos outros os sulcos semeados com amor e sacrifício, empenho e satisfação.

A dinâmica da vida polariza-se entre a purificação das paixões desordenadas e da iluminação interior, que se exterioriza em atitudes de amor e de justiça. Aprendemos as lições da vida, ora com amor ora com a dor. Aprendemos com nossos erros, buscando a superação. Aprendemos com o exemplo da caridade, do altruísmo, da solidariedade. Nosso estágio possui etapas sucessivas de aprendizados e habilidades, como escola de aperfeiçoamento. Aprendemos a enfrentar as contradições do egoísmo, do desafeto, de desequilíbrios dos quais somos vítimas e algozes. Aprendemos a nos dedicar aos outros, construindo dias melhores para a humanidade, a partir do espaço onde vivemos. A terra é lugar de purificação e iluminação. Somos todos calouros, novatos, aprendizes.

Na condição de estagiários recebemos dons e administramos bens de inestimável valor. Os dons espirituais ajudam-nos a administrar os bens materiais. Não somos donos de nada, apenas recebemos e repassamos em forma de préstimos recíprocos. Por isso também não acumulamos nem para nós nem para os outros. O mérito é de quem nos concede os dons e os bens: nosso Pai. Ele nos confia a construção da vida, utilizando os dons e os bens que passam por nossas mãos. Há liberdade de escolha de construir. O amor multiplica e distribui bênçãos. O egoísmo desperdiça e destrói.

Agradecemos ao Pai pelos que nos precederam no estágio da vida terrena. Seus exemplos somaram. Passaram por fases de dúvidas, tiveram suas fraquezas, enfrentaram provações. Lutaram. Experimentaram perdas, decepções, ilusões, traições. Entre poucas certezas e algum êxito, buscaram oportunidades. Seu itinerário evolutivo continua. A vida envolve-nos no mistério da ressurreição cuja experiência ultrapassa os limites e condicionamentos de nossa natureza humana.


Dom Aldo di Cillo Pagotto, sss
Arcebispo Metropolitano da Paraíba




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