Idosos e maus tratos


 05/07/2014 - Escrito para o Jornal da Paraíba

É um direito da pessoa envelhecer com dignidade. Proporcionar isso é um dever do Estado. Assim reza a Constituição, contando com a corroboração preponderante da família e das instituições, com evidente responsabilidade social, bem como de toda a coletividade. Mas, o que vemos, é que os direitos dos seres humanos passam a ser ignorados por vários fatores, sobretudo quando não existem vínculos de amor e gratuidade na família - igualmente na sociedade, quando os relacionamentos descambam para o oportunismo.

Na sociedade materialista, os valores referenciais nem sempre atendem à dignidade da vida do ser humano, mas à obtenção de vantagens particulares e ao imediatismo do lucro, sobrepondo-se às pessoas. As mais fragilizadas, no caso as crianças e idosos, mesmo respaldadas por leis e estatutos em seus direitos fundamentais, encontrarão sérias dificuldades por falta da criação das devidas condições que garantam a prática efetiva das leis. Há leis, mas sem garantias, por falta de infraestrutura - ressalte-se por falta de investimento financeiro.

Há direitos que, em tese, são garantidos e protegidos pelas leis. Por sua vez, há leis que se fundamentam em valores morais, em princípios éticos. Há leis que procedem da ordem natural. As leis divinas traduzem exatamente a ordem natural, estabelecida por Deus na natureza humana. Por absoluta razão natural, o amor é o princípio de toda lei! Porém, aumentam, em níveis assustadores, os maus tratos infligidos às pessoas idosas, exploradas, tratadas com violência. Isso é reflexo do que se passa numa sociedade de exclusões.

O valor supremo numa sociedade de consumo é o lucro e o prazer a qualquer preço. As pessoas podem chegar a valer como objetos de uso casual. Os novos critérios de valores, na sociedade competitiva, impõem o descarte das pessoas, principalmente se não produzem mas dão despesas. Nessa lógica perversa, devem ser exploradas de alguma forma. Daí os maus tratos ou a extorsão das pessoas idosas - rejeitadas, ao mesmo tempo exauridas dentro de suas próprias famílias.

Esse grave problema social vai se agravar cada vez mais. Em nível mundial, registra-se o despreparo dos governos - se tocarmos na questão das garantias previdenciárias. As perspectivas são sombrias até para garantir uma aposentadoria razoável, sendo que muitas famílias “vivem” às custas das pessoas idosas. O que precisamos fazer começa pelo amor a Deus e à vida das pessoas, reeducando-nos para a arte de amar sem egoísmo. O amor é um dom divino. O amor é a base dos direitos humanos. O amor precisa ser vivenciado desde o planejamento de um filho, vindo ao mundo como um sinal de bênção e não como intruso.

Anterior a quaisquer leis instituídas e sancionadas pelos estatutos dos idosos, que foram uma conquista inédita, devemos nos importar em programar atividades formativas para as nossas crianças, adolescentes e jovens a partir do lar, da escola, das universidades. Por outro lado, não podemos deixar as coisas soltas, sem medidas efetivas que inibam as práticas de maus tratos.


Dom Aldo di Cillo Pagotto, sss
Arcebispo Metropolitano da Paraíba

  •  Endereço: Palácio do Carmo - Praça Dom Adauto, s/n
    Centro - João Pessoa (PB)
  •  Fone:(83) 3133-1000
  •  E-mail: curia@arquidiocesepb.org.br
Twitter

© Mitra Arquidiocesana da Paraíba – Todos os direitos reservados