No que vai dar?


 15/06/2014 - Escrito para o Correio da Paraíba

O surto esquizofrênico de expressões de insatisfação generalizada volta às ruas. Protestos, greves oportunistas, paralisações, quebra-quebra, tumultos, invasões de prédios, queima de ônibus e veículos, agressões a policiais, saques, baderna. Grupos corporativistas procuram criar um fato social, na tentativa de desestabilizar a política, prejudicando a vida da população que, por sua vez, sente-se abandonada pelo corpo mole das autoridades incumbidas de chamar o feito à ordem. Sabe-se que entre grupos sindicalistas há uma disputa acirrada pelo poder e finanças. Há outro interesse para além da paralisação provocada por metroviários paulistas ou congêneres de importantes capitais estaduais. Há um equívoco estratégico proposital, por parte dos grupos de pressão. As instituições representativas da democracia são acusadas de agressão quando, segundo as diretrizes legais, são incumbidas de manter a ordem.

A população não suporta ser humilhada por oportunistas. Não obstante o corpo mole de autoridades, a população não vai suportar tornar-se refém de arruaceiros. Chega a hora em que o gato acuado reage e contra-ataca. Panela de pressão sem válvula de escape explode. Um dia a aparente passividade mostra o seu lado agressivo, reagindo de forma imprevisível e desastrosa. As autoridades devem compreender a linguagem do desrespeito, expressão da falta de sentido na vida. A população sente-se lograda pelo fato dos grupos de pressão usarem e abusarem do direito democrático à livre expressão. As manifestações de rua reivindicando mudanças estão de volta pela proximidade da campanha eleitoral. Percebe-se no ar o clima da insatisfação tendenciosa da sociedade.

Por outro lado, percebe-se que há uma confusão entre liberdade democrática e permissividade indiscriminada, devido à ausência de valores humanitários e cristãos. O paradigma aponta os valores materiais como referência de felicidade individualista - o poder pelo poder, sem se importar com o bem maior da coletividade; o lucro pelo lucro, o acúmulo e não a partilha de oportunidades. O prazer pelo prazer, sem levar em conta o compromisso, gera egoísmo e injustiça. Não podemos tolerar por muito tempo a esquizofrenia das situações vividas com grande interrogação sobre “no que tudo isso vai dar?”. O que se fermenta na mente de muita gente é a decepção com o despreparo e a incompetência de gestores públicos, somada à improvisação de medidas paliativas, sem tocar no âmago da ferida: o nosso atraso pela ausência de políticas estruturais nas áreas da saúde, educação, segurança e qualificação profissional.


Dom Aldo di Cillo Pagotto, sss
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